Meus pais se separaram em meados de 1986.
Minha mãe, depois de 13 anos de casamento, resolveu viver o que achava que merecia. E pelo que sei merecia sim porque meu amado pai, por mais amado que seja, não era um cara que sabia cuidar e regar um relacionamento (por motivos talvez válidos, mas que é assunto para outra hora).
Pois bem: eles moravam ao lado da casa da minha avó materna e, mesmo quando casados, eu sempre convivi bastante com minha avó e talvez por isso não vivi aquela familia convencional mamãe-papai-irmãos.
Minha mãe se separou e eu e meu irmão mais novo ficamos com minha avó enquanto meu irmão mais velho mudou-se para a casa nova do nosso pai.
Não lembro onde morou minha mãe nessa época. Os poucos fragmentos de lembrança são de ver as coisas dela em casa, mas não a sua presença.
Minha mãe queria viver o que não tinha vivido: noitadas, namoros, etc. E ganhamos o posto de prioridade número dois em sua vida, depois de todas as necessidades dela, claro.
Minha mãe é uma pessoa simpática e comunicativa e ninguém, olhando de fora e superficialmente, diz que ela colocou os filhos de lado para viver a própria vida. Detalhe: tinhamos, eu e meus irmãos, 15, 09 (eu) e 3 anos.
Eu não quero agora dizer que ela tinha de cuidar da gente por obrigação, o meu objetivo é justificar meu sentimento em relação à ela que citarei mais embaixo. E também dizer que, por mais justificáveis que sejam as escolhas dela, o sentimento de abandono no coração de três crianças existiu e as consequências disso em mim e meus irmãos existem.
Minha mãe sempre usou como desculpa para se desresponsabilizar de nós o fato de que minha avó nos protegia demais e que ela, minha mãe, gostava de fazer a linha “meus filhos têm liberdade”. Eu lembro muito do fato de que minha avó questionava muito minha mãe sobre responsabilidade materna. Minha avó achava muito ruim o fato de minha mãe preferir sair à fazer algo com os filhos. E eu lembro sim da minha mãe dizer que deixava a gente em casa porque minha avó não queria que ela nos levasse em suas noitadas. Eu morava numa cidade pequena e os poucos bares que tinham não eram, digamos, local e divertimento perfeito para uma criança, certo? Ok, não fiquem chocados, mas eu já fui algumas vezes apalpada por vários dos amigos queridos bêbados ou sóbrios da minha mãe nesse tipo de programa. Minha vó cobrava muito a presença de uma mãe à nossa mãe na nossa vida. Nada mais natural, já que vovozita criou sozinha cerca de 7 filhos.
Eu (ainda) não sou mãe. Mas penso que instinto materno quando existe vence qualquer coisa. Nada separa uma mãe que quer realmente cuidar de seus filhos, NADA. Criança não precisa de “liberdade” nos moldes em que minha mãe pregava. Para mim essa liberdade ela interpretada como “não me importo com o que se passa com vocë“.
Prosseguindo: um dia mentiram para mim e meu irmão mais novo nos dizendo que iríamos passar um dia na casa do meu pai. Mentiram para duas crianças e se há uma coisa que não se deve fazer para uma criança é mentir numa situação delicada assim. Na realidade nós íamos morar com nosso pai. Chorei muito, juntamente com meu irmão, porque até então eu sentia falta era da minha mãe e na minha cabeça o meu pai virou o carrasco pois era o responsável por uma separação que eu não queria viver.
Eu queria minha mãe como um cachorro que cai da mudança e pouco me importava se ela quase não ficava em casa, ou se ela passava o sábado à noite no bar com amigos/namorados ou se ela dava Sonin para o meu irmão dormir mais cedo para poder sair logo.
Muita coisa aconteceu depois disso, muito coisa que daria um livro: Meu pai morreu, voltamos para casa da minha avó, minha mãe foi sonhar em São Paulo com o então namorado, vivemos um inferno com minha avó, eu, então como meus 11- 12 anos, me virava sozinha na escola (porque nessa época fui sim uma aluna fodona) ao mesmo tempo que ia para a reunião de pais e mestres da escola do meu irmão mais novo. Põe aí: eu devia ter uns 12 anos.
Algumas das coisas relacionadas à minha mãe que me incomodam ou incomodavam:
- o fato dela sempre preferir a companhia do marido vagabundo dela (vagabundo literal mesmo porque o cara não trabalha desde que voltaram para BA do sonho paulistano esfarelado, faz mais ou menos 15 anos) e dos amigos. Uma vez, eu já morava aqui em Curitiba, fui para BA e ela deixou de se juntar à nós por alguns dias para poder curtir a casa sem minha avó, com quem ela e o marido moravam. Eu me desloquei de Curitiba para BA depois de muito tempo para ficar só alguns dias e isso aconteceu
- minha mãe nunca esboçou vontade de vir na minha casa e isso não era aceitável para mim. Ela usa a desculpa de que tem medo de avião. Então, belê. Existe ônibus também, se for o caso, mas não perco mais meu tempo discutindo isso porque acho que se ela quisesse mesmo viria andando até
- minha mãe tem um sério problema com dinheiro e gosta de usar sua simpatia para conseguir o que quer. Sim, ela é o tipo de pessoa que tem grana para emprestar ao amigo, para comprar cerveja e fazer uma social para ser A gente fina, mas paga tudo com o empréstimo na folha de pagamento. Ao mesmo tempo, claro que me enxerga (que não bebo e não faço churrasco para 50 pessoas mas que consegue juntar grana para comprar passagem aérea e ver a família) como alguém que deve ter grana sobrando
- Não me lembro MESMO de uma única vez dela ter ligado para mim sóbria para perguntar apenas como eu estava (a vez em que fiz cirurgia não conta, quero dizer ligação simples e despretensiosa mesmo). Não, ela não é (acho) uma alcoolatra, mas tem aquela péssima mania de sair ligando para os filhos quando bebe porque bate a saudade (ou seria a culpa?). Ah, sim: e quando ligava sóbria era para pedir dinheiro. Dinheiro este que eu cedi na primeira e segunda vez e depois passei a negar. Ao menos ela se tocou e não me pede mais
- minha mãe se gaba de ter três filhos, à sua forma, encaminhados. Porém o detalhe que não enxerga (ou não assume) é que pouco (ou quase nada) desse crédito pertence à ela. Ela criou três filhos sim: o mais velho encara a religião como sua vida, a do meio vocês lerão no parágrafo seguinte e o mais novo vê a do meio como mãe. Só nós três sabemos da solidão e confusão que é você ter uma mãe, que na sua cabeça de criança é quem naturalmente cuida e protege, não estando ao seu lado por outros motivos. E quando se tem 10 anos você não entende mesmo isso.
Juntando esses e tantos outros motivos é que definitivamente preciso assumir uma coisa que há muito tempo sinto: eu não a vejo como mãe. Ela é alguém que amo, mas apenas alguém. Minhas referências maternas são formadas por fragmentos de algumas pessoas importantes na minha vida porque viveram e vivem comigo a penúria do dia a dia, como minha tia, minha avó e alguns amigos.
Estou tocando nesta parte podre de mim porque parece que a vida tem cobrado dela esse afastamento do passado. Ela tem dado sinais de solidão e tem dito coisas do tipo “você é minha filha e eu te amo” como se quisesse convencer a si mesma de que isso faz dela uma mãe.
Isso não me comove, me afasta. Amor não se cobra. Não me sinto obrigada a amá-la como mãe e não me sinto culpada em meu sentimento como filha ter morrido depois de muito minguar. Dizer eu te amo é fácil e bonito, difícil é o resto.
Mãe é quem cria, e na falta da minha mãe biológica, a vida e as pessoas com quem convivo fizeram um bom trabalho comigo. Não porque resultei em alguém espetacular, mas porque elas estavam e estão lá, por livre e espontânea vontade, quando preciso ser só uma filha.
P.S.: Perdoem, por favor, os erros de ortografia, pontuação, etc, etc
