Fronteiras
Friday, March 28th, 2008Uma amiga reclama de um vizinho que fica espreitando na esquina até ela sair de casa para que ele tenha carona para ir ao trabalho. Detalhe: o caminho dele é diferente (e com muito mais trânsito) do que o dela. Mas ela se sente mal em ter de dizer “olha, não tô a fim de pegar trânsito, escolha um lugar no meu caminho em que eu possa te deixar” ou mesmo em inventar uma mentira inofensiva e que não requeira maiores explicações do tipo “tenho de chegar às 8 em ponto, beijo e tchau“. De tanto ela reclamar no meu ouvido cheguei a dizer que não me interessava mais por esses chororôs e que acho que ela merece isso e que eu quero é mais! Tomara que ele peça para ela pegar ele na volta também.
Certas pessoas têm mania (ou ilusão) de dizer que não sabem ao menos usar do artifício da mentira para tentar estabelecer um limite e isso para mim é uma grande farsa. Todo mundo mente várias vezes ao dia - ou aquele “alô, Carlos! tô com uma dor de cabeça medonha, não dá pra ir” que você inventou é tão dor de cabeça assim? - para determinar limites, mas muita gente tem dificuldade de mentir numa situação limite, como num momento em que um cara tá na tua porta aguardando uma carona. Mas elas costumam esquecer que o primeiro caso é uma mentira e saem dizendo que não sabem mentir.
Espera. Eu não estou aqui defendendo que a melhor maneira de estabelecer limites é mentindo. E nem dizendo que se deve usar de grosserias travestidas de sinceridade para dizer o que quer. O ideal no mundo onde eu seria a dona seria você pudesse dizer sim e não sem que sua integridade fosse maculada, sem que seu amor fosse questionado e sem que te achassem egoísta.
Já houve um tempo em que eu achava que era necessário dar explicações demais para dar base aos minhas imposições de limites, hoje cada vez menos tenho feito isso porque percebi que o discurso longo só servia para diminuir meu sentimento de culpa e que para os outros muitas vezes não importa se faço ou deixo de fazer porque alguém morreu, porque choveu ou porque eu não quis. Mas confesso que hoje sou uma cara de pau de primeira. Chego a dizer a verdade na cara de alguém usando de tom bem humorado que a pessoal se diverte. Ex.: um amigo me visita mas estou louca de sono. Ao invés de dizer “olha, desculpa mas tenho de dormir logo porque estou cansada” digo “olha o papo já deu o que tinha de dar, já matamos a saudade, estou louca para ficar sozinha e me jogar na cama, rua!“. O amigo ri, entende, sai e o amor continua porque ele entende que amigo também enjoa e que não é porque seja amigo que eu tenho obrigação de adorar recebê-lo sempre que ele tiver vontade.
Por favor, amiguinho que quer ser sempre bonzinho: impor limites não é questão de egoísmo é questão de conviver bem consigo para que você - que se preocupa tanto com o que vou dizer a seguir - seja, inclusive, uma pessoa legal com os outros.
