Comecei a fazer terapia. Fique sabendo que resolvi me assumir compulsiva alimentar. As sessões têm sido fantásticas. Claro que em cada uma delas uma luz se liga dentro de mim mostrando a forma incorreta que meu pensamento age alimentando minha compulsão. Vamos aos fatos:
Na primeira sessão a revelação: eu estabeleço continuamente datas de início de mudança de hábitos, coincidentemente sempre depois de grandes estrapoladas, para esquecer a culpa que tenho de não estar agindo de forma controlada. É, é isso mesmo. Cada vez que como de forma disvairada meu cérebro diz “ah, amanhã você muda completamente” e nisso a culpa que sinto por comer é esquecida. E nisso amanhã como de novo um monte e de novo meu cérebro depois “amanhã”. Não é assim que se muda, né? Não com culpa muito menos com fuga. Como a médica disse “são quase 30 anos de má educação que só vão se reeducar devagarinho, mas com atitude e compromisso”. É necessário convicção, claro, mas é necessário sofrer realmente, enxergar os motivos e mudar mesmo que seja um pouquinho para melhor.
O que fiz com isso que aprendi: não tem mais amanhã. A data de início já foi e nesse processo quando eu jacar eu não esconderei de mim como se eu tivesse condições de fazer a coisa funcionar de forma perfeita. Vou assumir e vou traçar planos que corrigam o estrago feito. Anotei a minha primeira pesagem e controlarei todas as próximas de acordo com as sessões. Até porque a médica me ajudará a não fugir da responsabilidade, já que vou fazer as pesagens na sessão.
Segunda grande constatação: quando você paga para ir num restaurante não quer dizer que você tenha de comer todo o buffet. Escolha o melhor sem culpa e curta todo o processo. O preço por pessoal inclui a preparação em casa, a ida, o local, a conversa, o guardanapo e o banheiro também. É um pacote completo.
O que fiz com isso que aprendi: não há forma melhor de dizer isso do que escolherei o melhor e curtirei todos os adicionais do programa.
Terceira grande constatação: comida é um transportador de afeto, mas não o afeto em si ou o único transporte deste. (esse tópico desenvolverei posteriormente num post especial)
Quarta grande constatação: cuidados não têm tamanho, se cuide. Nem toda vaidade é fútil.
O que fazer? Simplesmente me cuidar. Tirar do armário os cremes, maquiagens, massagens, tinturas, depilações, pedicures, cheiros e aromas para me cuidar no dia a dia. Eu mereço, oras. Hoje e sempre. Certo que ando precisando de umas roupinhas mas preferi guardar e juntar mais dinheirinho para comprar no mês de setembro por dois grandes motivos: os preços das roupas de inverno estarão menores e por ser meu aniversário quero me dar de presente esse pequeno guarda roupa novo (atrelado, claro, a um peso novo também)
Quinta constatação: uma imagem que ficou marcada na minha mente foi num dia quando eu tinha uns 10 anos e minha, engraçado, madrasta colocou um prato cheio de legumes sem gosto misturados na minha frente dizendo que era aquilo que eu tinha de comer para fazer bem. Só que quando olhei o prato de todos os outros eles comiam arroz, feijão, carne e NADA de legumes. Nisso a associação com verduras e legumes à falta de sabor e punição foi inevitável.
O que fazer com isso: desmistificar essa imagem. O que passou, passou. Hoje quem manda na minha vida sou eu e é perfeitamente possível tornar o saudável gostoso e o gostoso saudável.
Quinta (e talvez até agora) maior constatação: é muito frequente o meu pensamento no momento da compulsão de “quando você poderá comer uma quiche de novo? ou esse bolo?”. Esse pensamento, claro, acontece porque no passado tive momentos de privações e por isso era até encorajada nas oportunidades como aniversários e etc a estrapolar porque realmente outro daquele só Deus sabia quando. Mas o que meu cérebro precisa entender é que isso já foi. De que naquele momento eu não preciso escolher tudo (ou algo) porque terei oportunidades de experimentar depois. O tempo das vacas magérrimas já passou, não preciso mais dizer “vou comer o bolo e o brigadeiro – mesmo sem curtir um dos dois ou os dois – porque só Deus sabe quando poderei comer de novo”. Hoje posso dizer “vou escolher um dos dois ou nenhum porque se realmente eu tiver vontade de comer algum deles hoje posso comprá-los”.
É difícil admitir, inclusive publicamente, um problema como esse mesmo que isso me dê a sensação de leveza nos ombros. Porque comer é algo que se faz muito em companhia de outras pessoas e corro o risco de ser olhada atravessado naquele dia em que eu estiver comendo um hot dog e alguém pensar “olha só, ainda diz que quer mudar” sem saber que aquela foi uma escolha consciente, de que será o meu jantar e que por isso peguei leve no lanche e tirei da preparação a maionese, batata e farofa. Mas tentarei ignorar isso porque sou eu quem passo pelo problema e meu desejo de mudança não dá para transferir. E ninguém paga minhas contas, certo?
Outra atitude que tomei, ainda me acostumando a usar de forma mais frequente, são os verbos positivos no presente: Eu quero, eu vou, eu planejo, eu assumo, eu faço. E fazer, claro.
