Não sou atriz, modelo ou dançarina

Sou telespectadora passiva do atual BBB – a Malhação da Playboy e adjacências – e isso me irrita profundamente. Profundamente porque parece que algumas pessoas vivem num universo paralelo onde se permite creditar algum tipo de confiança, idolatria ou exemplo nas situações dali. É difícil escrever sobre isso fugindo dos adjetivos óbvios como esperteza, burrice, fugacidade, inutilidade, repulsa, etc.

Vejo por exemplo a Sônia Abraão com aquela simpatia e desenvoltura de morsa lendo não me importa o quê já que o que interessou foi a tarja que aparecia na TV “Calma Alemão, só faltam 5 horas para a Fani ir para casa“. Peraí, como assim? Quando foi que a porcentagem de ficção do BBB mudou de 95 para 100%? Quando foi que a Globo comprou a Rede TV!? E finalmente quando é que poderei entrar no site do BBB e, tal qual Paraíso Tropical, ler os capítulos de amanhã?

Deus é testemunha de que odeio correntes e emails sobre o quanto as empresas de telefonia e emissoras faturam rindo da sua cara (da minha não porque nunca liguei e isso não mudará nos próximos 1500 anos) com as mensagens de textos enviadas junto com a esperança de o seu “sim, quero que essa lontra vá pra casa” seja contabilizado mas entendo os que criaram esse tipo de mensagem não porque acredito que isso provocará uma mobilização em forma de boicotes mas porque essa manipulação da opinião pública (e principalmente privada) indigna qualquer organismo dotado de um pingo de bom senso.

Eu falei indignada? Ok. Não só indignada mas envergonhada pelos que aparecem e pelos que assistem. Me envergonho mais ainda pelos que assistem porque além de serem eles que me presenteiam com o assunto na mesa do lado no almoço, café e fila é também porque não contentes em ter um universo paralelo eles desejam trazer para a realidade expectativas cabíveis apenas lá. Me envergonho pela superficialidade e por aqueles que criam mais facetas para si do que aquelas mal resolvidas que já possuem naturalmente.

Me envergonho também quando vejo a Oprah sendo exemplo sublime de vida não pelo que, reza a lenda, ela descobriu e usou bem de si mas por ela ter uma casa em Santa Mônica maior que a quadra onde moro só para receber amiguinhos. Me enoja esse dislumbre que eu mesma sinto quando vejo que ela pode chegar numa loja junto com o Bono Vox e comprar, pincelando rapidamente os ítens, 10 Ipods e 10 celulares para dar para sua equipe. Claro que não importa se isso sairá do bolso dela (segundo ela, sairá porque uma porcentagem vai para as criancinhas, etc) o que importa é o poder. Qual a porcentagem no mundo que tem esse poder? Eu não consigo dizer “quero 10 Ipods e 10 celulares como esse. Bono, segure meu casaco um minuto” nem olhando no espelho. Em tempo: deixei de assistir a Oprah pelos assuntos repetitivos em pauta e por sempre esbarrar no velho e hipócrita jeito de ser norte americano.

Eu não entendo o motivo da necessidade de ser e/ou ter ídolos superficiais, não entendo porque esse tipo de artista – por assim dizer – dá autógrafo e aparece em mural de fotos em restaurante. Quando vejo uma personalidade de segunda linha, ainda mais se for um dos que me envergonhe solidariamente, solto um sorriso frouxo. E se visse um ídolo de verdade tipo o Darth Vader sairia correndo de vergonha de mim e só.

2 comentários para “Não sou atriz, modelo ou dançarina”

  1. “quero 10 Ipods e 10 celulares como esse. Bono, segure meu casaco um minuto”

    O mais perto que eu cheguei disso foi fazer careta para a Regina Duarte por causa da fumaça do seu cigarro.

  2. Ah, hoje sonhei que vc morava na casa que era dos meus avós em Suzano, SP. Vc estava magérrima, e mandou pra mim um presente. Pelo embrulho, com papel verde e fita, parecia uma camisa, mas quando eu abri era só papel amassado.

    Que vacilo.

Deixe um comentário