Vamos supor que ninguém esteja lendo
Thursday, October 19th, 2006A moça aqui do lado reclama do marido que, citando apenas as coisas menores, fala mal do cabelo dela, diz que ela tá gorda e descuidada, liga para dizer que precisa que ela chegue logo em casa porque ele quer ir jogar bola e não quer ficar cuidando da filha de 11 meses. A conversa parou por aqui porque não sei debater bem sobre essas coisas. Não que eu não tenha o que falar, mas por incapacidade de visualizar uma solução que não seja pegue suas coisas e saia de casa.
Vou dizer isso uma única vez: não há conforto suficiente para compensar uma sessão de depreciação explícita como essa. Não entra na minha cabeça um marido que impede que esposa saia com uma blusa justinha não porque você fica mais sensual e os outros vão te desejar mas porque aquele blusa deixa à mostra suas bordas e deusolivre andar com um colchão amarrado do meu lado. Grosseiramente falando nessas horas chego a acenar para a compreensão do motivo pelo qual algumas mulheres decepam o órgão sexual masculino por vingança.
Talvez já tenha comentado - portanto desculpem minha repetição - mas tenho vergonha de falar sobre relações abertamente porque acho que provoco frustração ao ser indagada por exemplo:
- Seu marido não sai sem você?
- Não. Nem eu sei ele.
- Mas ele não sai com os amigos, tomar uma cerveja, desestressar, etc?
- Não. Lá em casa só perco às vezes para um código mal escrito, uma atualização que não aconteceu e coisas desse gênero.
- Ah, então você usa coleira curta, né?
- Não. Sabia que é possível sentir prazer com a companhia de quem você ama? Você também não acha que ele não seja capaz de pensar sozinho sobre as próprias escolhas?
Eu não sei discutir bem sobre crises conjugais basicamente porque não considero relação um marido que faz o que descrevi no início, assim como não considero relação um conto de fadas onde os personagens são equiparados à cavalheiros vivendo num mundo onde tudo é rosa, perfumado, depilado e com orgasmos múltiplos usando de penetração. Relação boa pra mim é aquela em que é frequente ouvir e dizer eu te amo apesar de, onde as discussões inicialmente são até frequentes mas que vão se refinando com o tempo até que fiquem restritas aos assuntos relevantes. Também não entendo porque as pessoas fogem das divergências (por que chuva fraca em guarda chuva forte?) e/ou têm essa mania desgraçada de achar que relação harmônica é aquela que é baseada num acordo você manda - eu obedeço.
A dúvida à respeito da possibilidade de harmonia é tão grande que chego a ter vergonha que assumir que sou casada, feliz, hetero, monogâmica e de nunca ter ido num motel.
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