Sabe, dia desses numa das noites em que o sono perde o ônibus e demora a chegar eu lembrei de você, senhor. Não da sua pessoa especificamente, mas de toda a consequência acarretada do fato de você ter aparecido em minha vida. Mas não pense que foi algo premeditado do tipo “ah, como estou sem dormir é lógico que vou pensar naquele homem aparentemente bonito que fez parte da minha vida dos tempos longínquos”. Não. O lance foi “ah, já que o sono não vem, deixa eu pensar nas merdas do meu passado”. E foi aí que você veio. Olha como as coisas são engraçadas, eu pagava o maior pau por você. Achava charmosa aquela atenção que você me dispensava, os telefonemas de bom dia, o cartão que chegou pelo correio. Mas eu deveria ter desconfiado de que algo estava errado quando você falava de suas amigas lindas, principalmente daquela japonesinha perfeita. Rá! Não me perdoo por não ter farejado a sua baixíssima auto estima principalmente quando você dizia o quanto elas eram legais, companheiras, e principalmente LINDAS! Que tipo de homem diz para a (rôrôrô) namorada que precisa mostrar a foto da sua amiga-que-é-uma-japonesinha-linda só para que a namorada saiba o quanto-a-japonesinha-é-linda? E que tipo de (rárárá) namorada não percebe o pau de bosta que tá atracado nos braços? Eu deveria ter desconfiado quando você disse que os seus companheiros da casa estavam te reprimindo só porque você usava o telefone e não pagava nada. Por que será que eles foram tão injustos, hein? Coitadinho de você. Será que é porque você devia uns 800 paus de telefone? Que é isso, gente, e a amizade? E aquele lance da tua (ex) esposa, hã? De te endividar em quase 2000 mil reais de telefone pra falar com o amante carioca. Poxa cara, na boa, como é que eu não percebi que estávamos fadado ao fracasso? Por que será que daquela última vez que você veio, deu aquele desespero de voltar logo pra tua casa porque “bateu saudade da filha” e de noite quando liguei você tava com uns amigos no shopping? E eu cara, em qual grau de burrice você me encontrou? Como é que eu cai nessa? Por que é que me senti tão importante quando você ligava quase chorando porque eu não atendi o telefone à noite e você teve medo de me perder? Houve esse tempo em que eu confundia insegurança extrema com amor? Sabe senhor, não quero lavar roupa suja, isso aqui é mais uma análise que faço da minha capacidade de ser tão cega diante de alguém. É apenas a constatação de uma época em que eu acreditava que amor falado enchia barriga. E eu que pensava que você gostava de segurar na minha mão quando a gente saia e de tão tansa não percebia quando você se agitava é porque queria estar em qualquer lugar menos ao meu lado. Que bom senhor que você não quis receber o que eu achava que podia E queria te dar. Que bom que você me rejeitou e que eu quebrei a cara mais uma vez. Aprende-se na vida o que ser, e o que não ser. Pra falar a verdade hoje até me divirto quando vejo o que fui pra você e pra tantos outros de antes e depois de tua época. Até me divirto ao saber que o único elogio que você era capaz de dirigir a mim é que tenho uma voz bonita. E olha, minha voz continua a mesma, mas a minha delicadeza… Porque com homens como você foi que eu aprendi a ser dura, guardar o que tenho de precioso para quem realmente queira receber, não acreditar em cenas idiotas de ciúme e possessão. Foi com homens como você que eu aprendi que se o cara não é capaz de mijar de porta aberta conversando contigo é porque tem algo errado. Porque se ele não te mostra o xixi é óbvio que ele não vai mostrar o resto. Se você realmente quer saber o que desejo hoje para você digo que: espero que esteja bem, como eu estou (resposta mais adequada) ou pouco me importa (resposta correta). Na verdade senhor, para não ser injusta eu digo que você me deu três coisas que foram muito importantes para mim naquela época: o modem, a placa de som e as caixinhas.