Diário de bordo - parte 1.
Minhas pernas ainda estão levemente inchadas e meus dedos desacostumados com o teclado. Mas o dever me chama e depois de um final de semana alegremente atarefado e de uma noite pessimamente dormida estou aqui para contar a história.
Saímos de Curitiba com os prédios e casas enfeitados (em alguns casos de forma bizarra) e voltamos como se tivéssemos hibernado. O tempo na Bahia não passa, se arrasta. E mesmo tendo morado 23 dos meus 28 anos por lá meus olhos eram de turista. Tudo era novo, tudo era exótico, desde o pão de coco da padaria até aquele calor escaldante que te leva a pensar que (não é possível!) as pessoas lá devem ser répteis.
Pousamos em Porto Seguro por volta das onze da noite e o vapor marítimo nos aguardava junto com a exploração financeira por parte dos microscópicos empresários nativos. Eu tenho cara de turista por acaso? Não tá escrito na minha testa que sou baiana? Só porque não tenho mais sotaque? Mas, supondo que tenho cara de turista, pareço alguém que aceitaria pagar setenta reais por um quarto de casal da meia noite às quatro da manhã num hotelzinho chinfrin numa avenida mais chinfin ainda?
Conselho número um: nunca, NUNCA chegue em Porto Seguro e queira dar uma de gostosão dizendo que é turista por dois principais motivos:
1. No dicionário dos porto - segurenses diz que turista é o indivíduo idiota que sente um prazer especial em abrir a carteira e gastar sem se importar com o preço.
2. Turista por lá tem pra mais de metro. No aeroporto por exemplo é muito mais fácil ouvir alguém falar inglês, francês e espanhol do que português. Ou seja: se você é turista você não é um idiota especial, você é um idiota comum.
Fomos para a cidade onde vivi até o início da minha adolescência. Foi interessante percorrer o centro da cidade em menos de vinte minutos de caminhada. Lá, de tão pequeno, todos os lugares são apontáveis: a farmácia fica ali, a padaria um pouco mais à frente, o banco do Brasil daquele outro lado, o rio ali atrás do fórum. Devo ter reencontrado em torno de quarenta pessoas entre amigos e parentes. Fui num dos dois mercadinhos da cidade e enquanto apressava* algumas coisas encontrei um ex colega dos tempos do primário, o Aurélio, que me contou que já havia se casado, se separado, dois filhos, e como era bom aquele tempo em que eu dava banca** na varanda da casa de vovó, e que os professores sempre me dispensavam das últimas provas do ano (quem precisa de mais pontuação para passar tendo 29 pontos, sendo que o mínimo era 20 e o máximo era 40? Onde foi parar essa Kátia, meu Deus?!) e curiosamente hoje era conhecido como Léu Pereira (Léu mesmo, não Leo). Para dar uma turbinada nas nossas noites insones, como em toda cidade pequena, o prefeito de Ubatã estava promovendo na praça da cidade durante todas as noites shows com distribuição de cestas básicas, sorteios de camas, fogões, filtro de barro, etc. Pão e circo.
Um dia foi o show de calouros e a impressão que tive é que usaram um critério qualquer para premiar. Se bem que eles não tinham nenhuma outra saída já que, ouvindo a ganhadora cantar, eu senti falta da Pitty.
Comi pão delícia e empadinha e foi engraçado perceber que na Bahia é muito comum ter empadinha de bacalhau mais do que de outros sabores. Também tinha sonho com goibada escondida (O pedaço de goiabada, em muitos casos tão minúsculo que você só enxerga uma mancha, é colocado no meio da massa antes de fritar).
O natal lá em casa sempre foi simples: um franguinho peituro assado, uma farofinha com coisas misturadas, um arrozinho também com coisas misturadas, frutas e um enfeitezinho de um nove nove na mesa, um panetone trazido por alguém e só. Mamãe passa um batom, vovó põe o vestido florido que tia Nize costurou e caminha vagarosamente para o sofá para assistir a xuxa e a missa do galo. Sem presentes, sem vivas. Fui criada assim e de certa forma valorizo essa prática simplesmente porque eles fazem o que conseguem fazer. Enquanto em muitos outros lares as pessoas trocam presentes caros ou baratos, vovó se sente feliz em poder ter comprado um frango para cada um de seus filhos.
* ver o preço
** aulas de reforço escolar
(continua)
January 9th, 2006 at 1:44 pm
vou te dizer mulher: qualquer dia ainda me meto a dar aula numa dessas cidadezinhas pequenas e esquecidas do interior… ando sonhando demais com a paz dos lugares pequenos e quase escondidos.
quando pintar algum concurso em curitiba me dá um toque.
beijo
January 11th, 2006 at 6:01 am
oh my…
naum sabe como fico feliz em saver q vc tah VIVA!!!
qto tempo faz? 3 anos? 4 anos?
eu sumi? ou vc desapareceu após um momento de ódio repentino a minha pessoa?
ainda não esqueci do comentário via tel… “usar cotonete é ótimo, é quase um orgasmo auricular”… então tah neh! rsss
=*** si cuida…!
January 11th, 2006 at 9:14 am
Oi lindona :)
Viajei na sua viagem. rsrsrs
Quando vc fala da sua vozinha de vestido florido impossível não se lembrar da minha vozinha…”festido florido”…que saudade da minha vó legitimamente baiana.
Lá em casa o Natal foi igual ao seu…não damos valor para troca de presentes e sim por estarmos juntos…
Beijos e estou com saudade.
January 15th, 2006 at 5:35 pm
Eu tb estava na Bahia, só que em Salvador, e como turistona assumida mesmo! amei Salvador mais que tudo! nem queria mais ir embora.
Beijos
January 17th, 2006 at 1:19 pm
o bom da vida interiorana é justamente a simpliciadade. nada te recepciona melhor do que o sorriso da família quando você chega, nehuma seia do mundo é melhor do que aquela comidinha preparada com carinho pra você. nenhum presente é mais valioso do que a saúde daqueles que amamos. tudo, magicamente, parece se transformar na calma e na paz que merecemos.
January 17th, 2006 at 1:19 pm
o bom da vida interiorana é justamente a simpliciadade. nada te recepciona melhor do que o sorriso da família quando você chega, nehuma seia do mundo é melhor do que aquela comidinha preparada com carinho pra você. nenhum presente é mais valioso do que a saúde daqueles que amamos. tudo, magicamente, parece se transformar na calma e na paz que merecemos.
January 18th, 2006 at 12:41 am
Vc é feliz e não sabe :^P