Tuesday, December 20th, 2005
Sinto muito mas, só ano que vem.
Todas as vezes que vejo minhas pernas, axilas e virilha terrivelmente peludas, à espera do dia em que as levarei para depilar penso em comprar um depilador elétrico. Antigamente aquelas lâminas convencionais satisfaziam minha necessidades. Mas percebi que cada vez mais os pêlos engrossavam, inclusive na sobrançelha (sim, existem coisas piores do meu passado do que o fato de já ter ligado para o 145).
Os aparelhos rosinhas eram (e são ainda, talvez) feitos especialmente para as mulheres (ou homens com gosto especial) mas além de serem rosas, o que mais eles têm? Segundo a embalagem, algumas lâminas são otimizadas com aloe vera, hidratantes e o escambau, o que não proporciona patavinas ao resultado final no meu caso. Quando aderi à depilação por cera pus à prova toda a minha capacidade de sofrimento em prol de uma pele lisa e macia. Como não poderia deixar de ser, um dia eu tive de testar uma cera caseira, feita à base de açúcar, mel, limão, retalhos de jeans e coragem. O resultado foi meia perna depilada e um buraco de queimadura de uns três centímetros de diâmetro na perna esquerda. Já contei que existia também o ritual de descoloração dos braços e coxas com amoníaco líquido (ou descolorante em pó, quando a grana permitia) e água oxigenada volume 20? (Confirmando a tese de que existem coisas piores do que raspar a sobrançelha com lâminas).
Hoje sou adepta ao pagamento de vinte reais bi ou trimestrais a um centro de depilação. E até me divirto com a fuga das depiladoras quando me avistam entrando no recinto.
O que me faz resistir aos aparelhos depilatórios elétricos é a descrição de funcionamento do produto:
Cabeça de depilação com 21 discos rotativos (sistema de pinças).
Imagine dezenas de pessoas depilando você com pinças? É assim que deve ser o funciomanento. Alguns mais caros possuem dispositivos que prometem diminuir a dor. O que não nos deixa mais dúvidas: o troço dói pra cacete, cara.
Aqui na labuta as coisas já tomam os rumos do final do ciclo. Todo mundo corre, todo mundo colorido e eu aqui me espreguiço na cadeira sem que alguém me chame de preguiçosa. E minha cabeça dá umas voltas loucas e nem parece que semana que vem vou ver minhas pessoas que não vejo faz tempos. E nem parece que vou arrumar as roupas e colocar os presentes e, graças a Deus, os presentes melhores, na opinião deles, estarão fora das malas. Não sei como vai ser, se bom ou ruim. Nunca passei tanto tempo perto da minha família desde que sai de casa com as malas nas mãos e a coragem nas costas. Tenho medo deles me perguntem o motivo de eu ter saído porque nem eu mesma sei direito, já que parece que sempre fomos assim entre a gente, já que nem parece que um dia vivi oito anos com uma tia que não me dava bom dia e que hoje espalha aos quatro ventos a nossa visita. Eles envelheceram, eu também. Mamãe tem cabelo branco, ainda é professora, vovó ainda come cocada de leite e reza o terço as seis da tarde e titia ainda cozinha vestindo o avental. Eles estão diferentes, mas parece que sempre foram assim.
Essa etapa foi engraçada e diferente. Finalmente eu sinto que estou envelhecendo, que meu corpo é perecível, que minha mente é mutável mas isso é bom. Conheci pessoas eternas, falei muito, andei muito, ouvi muito. Hoje tenho (mos) uma sala pálida esperando por cor. Pro ano que vem quero uma galinha pintada como retalhos e uma planta junto à janela. E, quem sabe, testar a tão esperada receita de petit gateau.