Então tá assim: cinza, molhado, parado, mofado. Não há meia que chegue para sapato furado em dia chuvoso, não há guarda chuva que te guarde da cabeça aos pés, não há casaco que ponha em extinção o frio dos que caminham anônimos. Sento-me na cadeira da escolinha e sinto inveja do fio de cobre - ao menos ele é friccionado para produzir calor - que se dilata.

Uma colega coloca sobre minha mesa um drops de cereja e retribuo com um meio sorriso. As lembranças viajam até os tempos em que eu carregava minha merendeira (já que falávamos merenda ao invés de lanche) e que de vez em quando descobria que na garrafinha que sempre vazava havia leite com nescau, mesmo quando era toddy. E que as bolachas cream cracker embaladas às pressas com guardanapo ou quebravam ou se embebiam no leite marrom derramado. Minha garrafinha era daquelas furadinhas sem tampa, bastava girar e tomar o conteúdo que sempre tinha um leve gosto da borracha de vedação da garrafa. Uma colega chamada Sônia era o alvo da minha inveja porque ela sempre tinha muito dinheiro (aos olhos infantis, algo como cinco reais é fortuna) e comprava todas as gostosuras que a cantina fornecia.

Nos meus tempos de escola pública, fui agraciada com a merenda escolar que, ainda no meu tempo, parecia comida de mãe. O macarrão com almôndegas, o mingau de milho ou tapioca e o arroz com sardinha reverzavam-se durante a semana. Nos dias em que a cozinheira estava cansada era servido um leite com achocolatado (que não merecia ser chamado de nescau) com bolachas.

Voltei de viagem quando um professor de nome Repolho começava a falar da África. Acaba a aula, volto para a lata de goiabada e encontro o melhor abraço do mundo. Durmo pensando que o barulho de portas batendo era resultado da falta de educação do vizinho e descubro na manhã seguinte que tudo não passa de uma brincadeira serelepe entre a janela da minha sala e o vento.

One Response to “”

  1. Vanessa Says:

    Sem querer soar falso, ou colar aqui messagens prontas , pq isso não faço mesmo. Eu de verdade gostei do seu blog messsssmo! Gostei do jeito que escreve messsmo! E viajei ,sempre sombra de dúvidas nesse texto, na minha lancheira vinha leite e biscoitos , e sempre vinha uma fruta que sempre voltava intacta…
    hoje eu gosto de frutas..

    bjs

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