Se não me falha a memória, o que não é difícil nessa idade, a primeira vez que vibrei por uma conquista foi quando consegui cortar tecido. Para uma criança canhota isso é o ápice da destreza manual. Só quem foi menina na infância, independente de escolhas posteriores, sabe o que é cortar tecido, ainda mais com aquelas ridículas tesourinhas sem ponta. Na minha opinião essas tesouras são armas tanto quanto as outras, a diferença é que você tem de usar mais força e, consequentemente, provocar mais dor à sua infeliz vítima. Mas voltando aos panos, minhas bonecas já estavam cansadas de vestir apenas sarongues maltrapilhos e eu já havia testado todo e qualquer tipo de nó para inventar uma amarração para elas. Vocês não imaginam o prazer de se ouvir aquela cruuuchh do tecido sendo cortado, a sensação de realização quando sua avó dá o consentimento para que a tesoura de estimação dela - já enferrujada, mas da marca Mundial e com ponta! - fosse usada por você. O uso da agulha veio no embalo. Esse não foi muito difícil, já que é bastante fácil a constatação de que pontos com mais de um centímetro não uniam nada. Sentava-me no chão da sala, geralmente aos sábados, depois de banhada e limpada as orelhas (rotina semanal obedecida religiosamente por mamãe), e ao som do Cassino do Chacrinha imaginava o que faria com aqueles pedaços de pano que minha avó doava do seu tão cobiçado saco de retalhos. Se bem que ela só mdoava os pedaços abaixo de vinte centímetros quadrados dizendo que estava juntando para fazer uma colcha de retalhos que até hoje nunca fez. O fato de que meu repertório de moda não fosse extenso não me tirava esse prazer. Um retângulo juntado as partes estreitas e costurado já virava uma saia que me contentava e às minhas bonecas também. Ao menos elas nunca reclamaram.

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