Archive for January, 2005

Tuesday, January 18th, 2005

O negócio foi o seguinte: o lance da perna foi (ou é ainda, não sei) mais sério do que pensei. O médico me fez ficar de calcinha, me deu uma toalhinha transparente para que eu tivesse uma ilusão de proteção, examinou meu pé. Falando em pé ultimamente ele tem parecido mais uma massa de pão com crescimento disforme do que uma base de apoio propriamente dito. Voltando ao médico. Talvez - graças a Deus com ênfase no talvez - o que me ocorreu foi uma pequena - também com ênfase no pequena - trombose. E é importante que registre aqui a atuação magnífica do Yasmin. À curto prazo, nada de sério e a longo prazo também se houver cuidados. Pediu repouso, impossível em todos os momentos, e um exame de R$ 195,00 para verificar se ficaram sequelas. Aos poucos retomo às atividades cotidianas e amelianas. Nunca pensei que lavar a louça e pendurar as roupas poderiam me fazer tanta falta. Mas percebam como são as coisas: até nessa singela e dolorosa história cabe uma lição de vida. E se eu tivesse de dizer para vocês o que aprendi nesses dias, diria: “Só percebemos a importância de algumas coisas quando perdemos”. No meu caso, o convênio com a Unimed.

Wednesday, January 5th, 2005

Antes de mais nada, gostaria de declarar que mereço realmente definhar no Saara por cometer o sacrilégio de não citar Monty Python na lista daí de baixo. Ponto. Corta pro presente agora. Pela primeira vez nas últimas 3 semanas fui ao centro como sempre vou: caminhando. O motivo era nobre o suficiente para levar minha perna manca e não deixar a chuva roubar a minha coragem: Precisava de um dicionário. Descobri essa necessidade gritante quando dediquei um bom tempo pensando o que seria uma retórica. Chego nas já famosas Livrarias Curitiba - o que as Lojas Americanas são para o meu lado ralé, as livrarias são para o meu sobrevivente senso culto - e pergunto à um atendente encrachazado onde fica a sessão de dicionários. Ele me mostra o óbvio: Aurélio, do tamanho que quero. Pergunto o preço. 23 reais, senhora. Eu: huuumm. Ele: tem esse novo aqui, chega a ser quase como o Aurélio. Eu: Quanto?. Ele: 27 reais. (Pausa para que os mais desatentos percebam que, ou o atendente fez um curso de vendas ao contrário, ou ele estava na verdade fazendo alguma piada que não entendi). Na dúvida cruel fico com o Michaelis com cd - rom e tudo por R$ 19,00. Tem até expressões em latim.

O negócio é que comecei a estudar, sabe? É, com direito a folhinhas, fichário, apostilas gigantescas, lápis, canetas e borracha, sentada na mesa da sala e relembrando como eu fazia para estabelecer os tópicos num assunto. Das 15:00 até agora eu devo ter acrescentado umas 10 palavras no meu vocabulário e quem sabe esse texto até possue uma pretensão retórica? Esqueçam a última frase, é um só teste para ver se consigo inserir alguma palavra nova nos meus textos.

Sei que se começar a pensar em decorar tudo o que vejo vou pirar na batatinha, então resolvi testar uma nova forma de estudo: imagine-se no cinema, vendo um filme, alguém te contando uma história. Funciona sim, ou vai dizer que você decorou a história da Branca de Neve? É só imaginar os Sermões do Padre Antônio Vieira como uma dessas minisséries da globo ou as cartas do Tomás Antônio como as do Gibran para sua amada, sei lá, inventa. Deve ser um exercício parecido com aqueles que as mães com filhos que não comem verdura (ou esposas cujos maridos não comem nem ervilha) fazem para camuflar a alimento saudável. Falando nisso, já contei o que mamãe fazia? É uma época da minha vida em que posso perfeitamente definir como “A epopéia do quiabo”. Eu, inacreditavelmente sofria de anemia quando pequenina (e sofro ainda. De anemia, não de pequenina). Mamãe, lançando mão de artifícios para que eu comesse alimentos ricos em ferro, misturava o quiabo ao meu já tão amado purê de batatas. Uma espécie de cavalo de tróia culinário, entendem? E quando me apercebia de que ali se escondia algo até começava a frase “você col.. glup”. Era tarde, o quiabo é escorregadio, vocês sabem.

Tuesday, January 4th, 2005

Vai abaixo uma lista singela, mais por exercício de lembrar do motivo que me faz fascinada por eles do que para mostrar meu parco conhecimento cinematográfico:

Requiem para um sonho. Dos três, a mãe é que mais me deixa deprimida. Aquele solidão, misturado com todos os sonhos é um prato cheio para um mundo ilusório. Claro, os comprimidos ajudaram muito.

As bicicletas de Belleville. Desse nem preciso falar muito. Simplesmente delicioso.

Minha vida sem mim. Olha como a vida é engraçada: entro no cinema esperando derramar cântaros e saio sorrindo. O drama mais gostoso que já tive oportunidade de ver.

O iluminado (ambas as versões). A primeira, pela perturbação Kubrickiana, a segunda pela fidelidade com o livro que tanto gostei.

Indiana Jones e a última cruzada. Tem o Sean Connery que por si já basta. Mas para melhorar tinha ele no pé do Ford, chamando-o de Júnior.

O casamento de Muriel. Esse se enquadra naquela categoria de filmes com personagens fortes, porém comuns. O retorno dela até sua casa e a constatação de que nada mudou é uma das partes mais lindas.

Gilbert Grape. Tem o que? Uns 6, 8 anos que vi? Olha, não posso falar mal do Di Caprio nesse filme não.

Show de Truman. Será que foi a partir dele que comecei a evitar televisão?

O silêncio dos inocentes, Hannibal e Dragão vermelho. Pela sua intersecção: o Hannibal, óbvio. Dele assisto até se resolverem fazer um Jason X Lecter.

Allien e toda sua sequência. A grandalhona Sigourney conseguia ser heroína sem precisar de silicone.

Fale com ela. Benigno é um personagem que por muito tempo merecerá minha atenção.

Carne trêmula e O piano. Ambos pelo mesmo motivo: possuem as cenas eróticas mais belas.

Dogville. Porque fazer o que se pode nem sempre é o suficiente.

Pulp Fiction. Ver o Tarantino brincando com fogo sem se queimar é divertido.

Mente brilhante. Brilhante também é o Crowe. Coitado. Ele deve ter tido muitas dores nas costas por andar daquele jeito.

Amelie Poulain. Sempre quando lembro desse filme brinco de enumerar as cenas que mais gosto e páro quando vejo que já enumerei umas 20. Eu sei que para provar isso teria de enumerar várias aqui, mas não me importo. Duas delas me fazem um nó na garganta: A Amelie se transformando por um curto momento nos olhos do cego durante a travessia da rua e a cena final do passeio de moto. Tem um momento nessa cena que ela abraça o Nino e fecha os olhos de um jeito que é impossível não se deixar inflar.

Ficaram muitos de fora, eu sei. Nunca parei para fazer um top sobre filmes. Primeiro porque top me faria ter o trabalho de conferir uma ordem de importância, segundo porque os filmes que me marcaram foram muito mais que 5 como viram.

Alguns filmes gosto pela sutileza e simplicidade do cenário combinados com personagens marcantes. Também gosto de características psicológicas fortes, porém comuns entre todos nós. Me martirizo por ainda não ter visto muitos filmes que já sou apaixonada mesmo antes de assistir. Coloquei nessa lista, dentre outros: A professora de piano, Meninos não choram, Denise está chamando, Corra Lola Corra, Laranja Mecânica e Bagdá Café. Esse último o aparelho de dvd fez questão de me deixar assistir até quase a metade, só para aumentar mais ainda a vontade.

Existem filmes que assisto por causa de uma cena, ou pela forma avassaladora em que identifica uma característica minha. É como se de repente você estivesse lá, a expressão facial é sua, as frases são as que você diria. Alguns filmes fazem com que eu me sinta assim, invadida, descoberta, perturbada, pensativa. Não por representar a realidade que eu talvez deseje que aconteça, mas por mostrar as dificuldades que eu mesma encontro ao procurar meu final, feliz ou não.